27.12.20

Ad aeterneum

É inerente aos ser humano acreditar que tudo é para sempre.

Quem um dia, não achou que fosse morrer com a dor de uma amor não correspondido, não teve uma decepção que dilacerasse o coração ou  teve vontade de se trancar no quarto achando que nunca iriam esquecer o mico que acabara de pagar.

Mas  sobrevivemos e ainda custamos a acreditar que tudo... passa!
Os momentos felizes? Eles acabam! E  por isso é preciso vivê-los  profundamente, com intensidade, sem medo porque indubitavelmente eles se vão.

Mas como a vida é engenhosa o mesmo se aplica à dor. Não existe sofrimento incessante, por maior que seja, portanto martirizar-se não é a melhor forma de passar pelos momentos  difíceis. Confesso que não sei a receita para esses momentos. Hoje, na minha experiência, tomo consciência deles e aguardo pacientemente a hora em que eles se vão. 
A certeza de que nada é para sempre me acalenta.

Nenhum sofrimento assim como os momentos felizes duram "ad aeternum".
Acredito que essa é uma das belezas da vida: não é possível estar feliz o tempo todo, isso é decepcionante mas natural; e nem tristes ou sofrendo para sempre (que alívio!).

Penso que quando aceitarmos que "pra sempre sempre acaba" viveremos muito melhor.

22.4.20

Renascer das águas



    O choro debaixo do chuveiro é o precursor de mudanças. Não daquelas que se deseja, sonha e busca, mas a que vem empurrada pelos solavancos da vida. Sendo assim, é sofrido, selvagem  e ressentido.

   Ele vem com uma dor, que arranca o fôlego, embaralha pensamentos e sentimentos.  Não é possível discernir se é tristeza, decepção, arrependimento, raiva ou desolação. Só é possível sentir um buraco no peito.Esse buraco se alimenta de lágrimas.

    E debaixo do chuveiro a água leva consigo as lágrimas e todas as certezas a respeito de si, do outro e do mundo.  A alma nesse momento está exposta assim como a fraqueza.

   Como um ovo cozido, que descascado embaixo d'agua perde exatamente o que o protegia de ser consumido, dá pra medir o tamanho de qualquer vulnerabilidade.

   Mas, o passar do tempo e a água a escorrer pela cabeça  têm a capacidade resgatar o mínimo de lucidez-  ainda que momentaneamente.

   Ao desligar o chuveiro, o ralo engole o último resquício da pessoa que um dia fora. O corpo volta a sentir a realidade. A mudança já aconteceu.

   Ao contrário do ovo, não somos devorados, ou pelo menos não deveríamos ser. A pouca lucidez permite avaliar as possíveis fraquezas e ainda que inconscientemente luta-se para combatê-las.

 Uma nova casca é criada, e desta vez, julga-se  que ela seja forte e impenetrável.

  Ah! Doce ilusão!

 Essa nova armadura, é eficaz apenas para as coisas sutis e boas  da vida. Justamente as que dão a leveza necessária para que se continue a viver.

 Essa armadura, casca é, portanto, uma armadilha que se converte numa amarga  prisão.

  É quase certo que voltemos a chorar no chuveiro - é a vida! - mas isso não pode e nem deve servir de subterfúgio para  que se construa  couraça e muros que  aprisionem. 

Enfrente. Em frente!