O choro debaixo do chuveiro é o precursor de mudanças. Não daquelas que se deseja, sonha e busca, mas a que vem empurrada pelos solavancos da vida. Sendo assim, é sofrido, selvagem e ressentido.
Ele vem com uma dor, que arranca o fôlego, embaralha pensamentos e sentimentos. Não é possível discernir se é tristeza, decepção, arrependimento, raiva ou desolação. Só é possível sentir um buraco no peito.Esse buraco se alimenta de lágrimas.
E debaixo do chuveiro a água leva consigo as lágrimas e todas as certezas a respeito de si, do outro e do mundo. A alma nesse momento está exposta assim como a fraqueza.
Como um ovo cozido, que descascado embaixo d'agua perde exatamente o que o protegia de ser consumido, dá pra medir o tamanho de qualquer vulnerabilidade.
Mas, o passar do tempo e a água a escorrer pela cabeça têm a capacidade resgatar o mínimo de lucidez- ainda que momentaneamente.
Ao desligar o chuveiro, o ralo engole o último resquício da pessoa que um dia fora. O corpo volta a sentir a realidade. A mudança já aconteceu.
Ao contrário do ovo, não somos devorados, ou pelo menos não deveríamos ser. A pouca lucidez permite avaliar as possíveis fraquezas e ainda que inconscientemente luta-se para combatê-las.
Uma nova casca é criada, e desta vez, julga-se que ela seja forte e impenetrável.
Ah! Doce ilusão!
Essa nova armadura, é eficaz apenas para as coisas sutis e boas da vida. Justamente as que dão a leveza necessária para que se continue a viver.
Essa armadura, casca é, portanto, uma armadilha que se converte numa amarga prisão.
É quase certo que voltemos a chorar no chuveiro - é a vida! - mas isso não pode e nem deve servir de subterfúgio para que se construa couraça e muros que aprisionem.
Enfrente. Em frente!